domingo, 21 de junho de 2009

Pequena





- Eis Barbosa



Era uma pequena morena, de tez bronzeada pelo mesmo sol que tingira os índios seus avós, cabelos pretos escorriam pelos ombros até a cintura de desenho ainda raso pela meninice. Os olhos, como das amigas-irmãs que viria a conhecer em seus dias de mulher, eram grandes e curiosos. Crescia em torno daquele par de amêndoas cor de ônix, que lhe concedia olhar ora doce, ora triste, mas sempre atento.


Cria da terra, imiscuía-se à natureza como parte dela, esticando o corpo no chão fresco para contemplar o céu, solta, cheia de mato nos cabelos emaranhados.


Passava o tempo a pensar, a criar histórias na sua cabeça de doida! E cansava, mudava de posição, estirando-se agora de barriguinha para baixo, queixo sobre os braços cruzados, reparando no chão, que há muito no chão que se reparar.

Das brincadeiras, perguntar era a que fazia o tempo passar muito rápido e divertido. Tanta novidade, tanto acontecendo, o mundo havia começado sem ela e saber era preciso, por isso perguntava tudo, e sabendo do tudo que perguntava, queria saber de seus "porquês". Existiam tantas respostas que logo deu conta do que viria a ser seu tesouro mais precioso, seu brinquedo mais querido: perguntar, “por quê”?

Quanto mais “porquês” perguntasse mais respostas teria, portanto, esse brinquedo era infinito!

Infinito!

Descobrira o único “para sempre” que sua intuição feminina lhe indicava confiável. Tomou-o para si e desde então só sai acompanhada do pensamento!

Feliz, embora fosse sozinha de gente na cumplicidade que tecera consigo. Era menina como as outras, só um tantinho mais repreendida. Nunca acertava direito o vestido, gostava de andar descalçada, tiaras e elásticos de cabelo lhe davam uma dor de cabeça terrível, tinha casca de ferida (e nem ligava!), joelho muito ralado (achava linda a cor do mercúrio cromo!) vontade de chorar “à toa”, esquecia toda hora do inaceitável que era sentar-se como quisesse, que tinha de ter modos no falar, no caminhar, no gargalhar (um contra senso, no auge da alegria lhe chamavam a atenção!).

Ora, mas você não é uma mocinha? Era! Só não entendia o que isso tinha que ver com todo o resto. Mas tentava bem muito fazer como lhe pediam, e tentava fazer como as mocinhas, mas ficava-lhe sempre largo o gesto, e seu coração casmurro insistia sempre de que nada disso era a verdade do “por quê?” buscado sempre.


Nunca diziam que era linda, mas que certamente seria um “mulherão”, e que tinha de se cuidar, murchar a barriga, estufar o peito, ter postura. Assentia com a cabecinha esperta que só queria crescer para poder experimentar as coisas que os adultos descobriam, viajar sozinha, ler os livros que os adultos liam, e também para usar sapato de salto alto, porque o som que faziam nos filmes era coisa muito fina!

Cresceu, fez como queria e brinca muito ainda de perguntar de tudo e do por que de tudo. Encontrou aquelas amigas-irmãs (e uma amiga na própria irmã) ficando menos só. Mudou pouco do que era guardando ainda certo desajeito naquele proceder de mulher ideal que devia ser.

Tem as unhas sem polir, os pés pisando nus a terra, a gargalhada ecoante, exposta num sorriso cheio de dentes, vontade de chorar toda vez que encontra gente humana. Os olhos é que finalmente harmonizaram com seu tamanho, mas ainda não sabe bem se é como deveria ser e de vez em quando acha bem bonito aquele ar distante que têm as outras mulheres.

4 comentários:

  1. Que bom vê-la acolhida em teu regaço generoso de mãe dos próprios caminhos! A pequena certamente se refestelou em teu afeto, a cabeça se aprumando com mais firmeza no alto, não por empáfia, mas pela alça invisível da auto-estima.

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  2. Pois é amiga, me dei mesmo esse desconto, esse texto de presente... cuidei da minha menina :O)

    Beijos,
    Elis

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  3. Sabe que foi lendo sobre a sua que fiquei me lembrando da minha? Naquele seu texto lindo "A estante"... Aquela sua menina me deu um abraco tao gostoso que me fez recorrer a minha quando me senti so.

    Portanto, obrigada!
    Um beijo querida,
    Elis

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