sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Vegetativo

Por Roberta Mendes

O dia gastou-me até o caroço de mim. O tempo e suas mandíbulas de ponteiros roeram-me ainda o hermético núcleo, empurrando-me contra o duro palato, para, então, girar-me contra a língua espessa das horas à cata de alguma sobra nas reentrâncias. Julgando que me esgotara, deitou-me fora, farejando os restos com o desdém dos cães às tigelas vazias.

...Mas o caroço é a astúcia das coisas, resguardando-se...

Partisse-me o grão, aí sim, mordia-me em cheio o ser. Na porção-grão irredutível de mim, germino a lenta reinvenção da força. Afinal, a palavra de ordem de toda semente é vingar...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Suas notas me remetem a...

Desfruto agora de um momento raríssimo de se viver nesses últimos tempos... intervalo! Estou em um intervalo!!! Engraçada essa sensação de lugar para descrever um tempo, estou em um intervalo. Para aqueles que já esqueceram, intervalo é um tempo que se situa entre uma coisa que aconteceu e outra que está para acontecer (acrescentem outras definições para intervalo os que puderem!).

Desde a modernidade, intervalos são cada vez mais raros uma vez que, existindo um tempo entre uma coisa que terminou e outra que vai começar, costuma-se fazer aquelas coisas para as quais não sobra tempo algum. Ocorre que nesse intervalo em especial me encontro sem nada para fazer... então volto-me ao caro exercício de observar e transcrever o que minhas lentes captam, para continuar treinando a caligrafia...

Eis que, de repente, me deparo com uma coisa incrível, que a maioria de nós já viu, mas me pergunto se reparamos...um balé, estava acontecendo bem diante dos meus olhos o balé das canetas rodopiantes!!! As pessoas rodavam canetas dos mais vários tipos por entre os dedos, e não sei se era o movimento hipnotizante das canetas ou o desconforto de um momento onde o ser se vê obrigado a – das duas uma – estar consigo e consigo mesmo ou estar com o próximo, que nesse caso está à distância de uma cadeira.

O fato é que o exercício da dança das canetas parece ter congelado os olhares...e surgiu então um outro intervalo, o intervalo entre a caneta que roda freneticamente e o fazer algo com o breve momento em que não se tem absolutamente nada prescrito, pré-estabelecido ou determinado para fazer.... mas o que? Deus o que faremos se ninguém nos disser o que fazer?

Alguns tentaram, eu vi, posso servir de testemunha, tentaram estabelecer contato com outros através de tímidos desvios dos olhos das canetas para o próximo, mas este já tinha sua própria caneta e voltávamos à estaca zero!

Há que se levar em consideração que era uma sala de aula (e não, salas de aula como aquela não intentam propiciar qualquer tipo de interação), há que se considerar que já era noite e que a maior parte dos indivíduos que ocupavam aquela sala tinham atrás de si um dia inteiro, cada qual com a sua porção de horas, mas ainda assim admito que me arrepiou o frio da distância entre as pessoas.... Curioso, uma distância (enorme) dentro de um intervalo (tão curto)... isso me remete a algum conhecimento que devem ter plantado dentro de mim mas que tenho a impressão de não me pertencer... tem alguma coisa que ver com matemática? Não, não, era física. Era?

E agora? Agora são os números plácidos dentro dos relógios nervosos, devidamente amarrados aos pulsos cerrados, aliás, alguém sabe me responder por que razão no mundo cerramos os pulsos para ver as horas?!

Agora, agora seremos todos salvos! Não criemos pânico... o professor acaba de entrar e ouvi-se o uníssono dos suspiros de alívio... o intervalo acabou!!! Está restabelecida a ordem e finalmente voltaremos a fazer...
Elisangela Barbosa

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Notas distraídas

Enfim, uma maneira confortável de escrever: reclinada sobre o sofá, joelhos flexionados, improvisando encosto ao laptop, pousado sobre a barriga como um caderno de anotações - sinônimo a que, aliás, faz jus.
O notebook e sua encadernação de duras capas está aberto, ofercendo-me o fecundo ventre. A face branca da folha virtual desfraldada à altura de meus olhos. Escrevo sem olhar-lhe as teclas e lendo, assim, com espanto bíblico, o que se escreve à minha frente, sem que saiba a mão direita o que digita a esquerda, como se o fato de eu não as olhar enquanto escrevo, tornasse-me as mãos alheias e, por isso mesmo, mais livres.

Seremos sempre mais livres enquanto distraídos de nós mesmos?
Pelo menos é assim que cantarola, sem pudor nem afinamento, a funcionária da limpeza, quando entra no elevador, mesmo se cheio. Os olhos, trá-los sempre fixados, não no chão, mas nos espaços vazios entre as pessoas, o que, dependendo da dolência da música, confere-lhe, convenhamos, uma risível teatralidade.

E porque não nos fite e não nos surpreenda jamais, fitando-a, é que canta a funcionária da limpeza, protegida sob sua presunção de invisibilidade, sem dar por si, ou, pelo menos, sem dar-se demasiada importância, motivo pelo qual passa não-detectada pelo crivo de qualquer possível auto-censura.

Há, certamente, dentre os que ali vamos gogós engravatados que bem gostariam de fazer-lhe coro... Mas seria preciso afrouxar a gravata, o que traz, por si só a consciência de se ser alguém, com uma determinada ocupação, em razão da qual se tem que trajar gravata, mesmo em dia tão abafado (maldito trocadilho!)... E todos sabemos que não há nada que anule mais a voz de uma pessoa do que um nó na garganta.

Desço do elevador, aprisionada, nó na garganta pela música que não cantei ("olha a voz que me resta!"). Caminho em direção à saída (há saída?), enquanto a música segue ("olha a veia que salta") cantando-se / calando-se na minha cabeça:

“(...)Por favor,
Deixe em paz meu coração(!)”...

- Roberta Mendes