
Moravam no sítio vacas e seus bezerros, éguas de montaria (mas nem todas), galinhas com seus pintinhos, um ou outro peru que, ao som dos assobios recém aprendidos, respondiam à menina que achava muita graça daquilo. Havia ali também variedade de plantas, algumas de comer, outras de enfeitar, sendo que sua favorita era a erva de capim-limão porque, a despeito do calor, faziam chá todas as tardes, seu avô e ela. Era o momento que tinham. Colhiam a erva cortante, lavavam, dobravam com facilidade aquelas folhas estranhas, que punham dentro da chaleira enorme para tomarem dela a essência.
Dirigiu-se o menino a ela, sem deixar que se recobrasse. Chamou o avô e descobriu que aquele um haveria de aparecer por lá mais vezes.
Divididas as tarefas, encaminharam-se ela e seu avô, para a soltura do gado, enquanto o menino ficava, muito à vontade por ali, com outros afazeres. Reparou que era ágil, que falava pouco, que tinha intimidade com o sítio, com o avô. Sentia uma mistura estranha se fazendo dentro dela: ciúmes, vontade de rir, um frio na barriga, um quente nas faces, e uma leve taquicardia.Enquanto seguiam o caminho de volta pediu para montar a égua e podia, hoje podia. Eufórica, correu para casa a fim de tomar um pouco de água enquanto o avô preparava a montaria. Mas qual não foi o susto, quando se deparou com a imagem do menino, trazendo para ela a égua, montado nela, sem sela, em pêlo. Teve, sem o saber, seu primeiro pressagio de mulher, que ainda não o era, teve certeza de que aquela imagem jamais a abandonaria. Parara de respirar e sentia a mesma alquimia percorrer-lhe o corpo. Uma vez mais.
