sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Historia de Verão - Parte I


- Por Elis Barbosa
Guarda que era ainda uma menina quando passava alguns preciosos dias de suas eternas férias de verão no sítio do avô amado. Aqueles dias quentes, acompanhados de brisa boa, nascida das copas das diversas árvores que sombreavam o mundo, eram de conforto, pois que podia ter a liberdade que quisesse.

Moravam no sítio vacas e seus bezerros, éguas de montaria (mas nem todas), galinhas com seus pintinhos, um ou outro peru que, ao som dos assobios recém aprendidos, respondiam à menina que achava muita graça daquilo. Havia ali também variedade de plantas, algumas de comer, outras de enfeitar, sendo que sua favorita era a erva de capim-limão porque, a despeito do calor, faziam chá todas as tardes, seu avô e ela. Era o momento que tinham. Colhiam a erva cortante, lavavam, dobravam com facilidade aquelas folhas estranhas, que punham dentro da chaleira enorme para tomarem dela a essência.

O leite, o queijo, a salada, os temperos, as frutas, vinham daquelas mãos ásperas e fortes do homem que serviria de medida, sem que ela ainda o soubesse, para os outros que viriam. Este era mais forte que o pai, tinha consigo, dada pela própria natureza, a primitiva força da terra que já a emocionava, era mais sábio que o pai, era o avô.

Cedo pela manhã, já pronta para acompanhá-lo na soltura do gado, entretinha-se enquanto escolhia sua vara, quando viu chegar o desconhecido, era quem de costume ajudava seu avô com as tarefas matinais, mas disso não o sabia. Chegava com um chapéu de couro na cabeça, munido já de sua própria vara, e deu nela uma vontade de ficar olhando e uma vergonha de sorrir. Era ainda menina quando, pela primeira vez sentiu o coração mudar seu ritmo diante da imagem de outrem, de um jeito que não tinha acontecido antes.

- Seu Tito tá?

Dirigiu-se o menino a ela, sem deixar que se recobrasse. Chamou o avô e descobriu que aquele um haveria de aparecer por lá mais vezes.

Divididas as tarefas, encaminharam-se ela e seu avô, para a soltura do gado, enquanto o menino ficava, muito à vontade por ali, com outros afazeres. Reparou que era ágil, que falava pouco, que tinha intimidade com o sítio, com o avô. Sentia uma mistura estranha se fazendo dentro dela: ciúmes, vontade de rir, um frio na barriga, um quente nas faces, e uma leve taquicardia.Enquanto seguiam o caminho de volta pediu para montar a égua e podia, hoje podia. Eufórica, correu para casa a fim de tomar um pouco de água enquanto o avô preparava a montaria. Mas qual não foi o susto, quando se deparou com a imagem do menino, trazendo para ela a égua, montado nela, sem sela, em pêlo. Teve, sem o saber, seu primeiro pressagio de mulher, que ainda não o era, teve certeza de que aquela imagem jamais a abandonaria. Parara de respirar e sentia a mesma alquimia percorrer-lhe o corpo. Uma vez mais.

domingo, 30 de agosto de 2009

Tarde em Olinda


- Por Roberta Mendes

Chegando em Olinda ruas cantantes a oferecer tapioca e capoeira meu Deus tanto aroma tantos timbres tanta cor. Irrompe a alfaia. O coração, em prontidão, dispara.

Estou alerta, alerta, como se tivesse acordado-entontecido em meio a um grande perigo. É o Maracatu!

Sofro da ascendência inescapável de seus tambores e danço, demônio ágil, faces em fogo, lábios de sangüíneo carmim.

O tocador me espreita. Sou um bicho que caminha excessivamente perto, eriçando-lhe os pêlos. Seus olhos me fixam e instigam instintos de predação. Medimo-nos sem pressa, serpente e encantador. Mortal minha languidez. Mortal sua atenção. Só um homem sabe fitar assim, maciçamente. Autoritariamente. Como a anunciar: és minha.

Não nos interessa o embate. A tensão mesma nos basta. Cortejamos a latência, a energia em suspensão. Tudo gira em vertiginosa ciranda. Só nossos olhos imóveis, numa intrigante ausência de velocidade, eixo em torno de que gira a ciranda Olinda gira a cidade de mãos dadas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Selo Blog de Ouro


Deve-se ao amigo em letras Flávio Corrêa de Mello a mais que generosa indicação de nosso modesto espaço ao selo de Blog de Ouro. Imaginem nosso espanto, na igual proporção de nosso contentamento. E lembrarmos de como era bom ter as lições condecoradas de estrelas!

Ainda por cima, o jogo é daqueles de que mais gostamos: brincadeira de passar adiante! Se anel ou palavra, reinventada ao passar, ao selo que sela admirações mútuas, tudo tem o gosto das coisas compartilhadas. Corrente assim não se quebra! Depois de muito soprar os dados entre as mãos brincadeiras, lançamos, Elis e eu, as pedras da amarelinha, que marcaram as seguintes casas para o percurso do leitor:

=> O N Z E P A L A V R A S: espaço desenvolvido por Ana Karina Bucciarelli, que, ao mesmo tempo, se revelou e se descobriu no próprio blog enquanto Autora. E, ainda por cima, de excelentes textos, marcados por uma linguagem extremamente poética e delicada. Outro ponto forte do espaço é o diálogo perfeito entre os textos e as ilustrações que lhe acompanham, potencializando a força imagística de suas metáforas precisas.

=> BUTECO DO EDU: blog de um excelente contador de histórias. Edu é, enquanto narrador, o maior personagem de si mesmo, com seu humor ácido e sua ironia desconcertante. Seus textos, geralmente longos, são tão deliciosamente fluentes que conduzem o leitor, com leveza, até a última linha.

=> DIDONEANTE: em contraste com o universo extremamente masculino do Buteco do Edu, temos a escrita feminina, mas não menos vigorosa, da Débora Poulain.

=> O COLECIONADOR DE PEDRAS: espaço onde o escritor e poeta Sérgio Vaz conta, com imagens contundente, sobre suas vivências de periférico, de engajamento literário, de dentro de uma São Paulo revelada a partir da COOPERIFA, em realidade humana. A qualidade literária e as possibilidades infinitas de impressões que o texto do poeta deixam emociona, reclamando reflexão, sensibilidade e entrega.

Outros dois blogs que indicaríamos, quais sejam o TREMA LITERATURA (diversos autores) e o RIO MOVEDIÇO (do próprio Flavio Corrêa de Mello), cuja fluência literária se antevê pelo próprio título do blog, já foram, como não poderiam ter deixado de ser, indicados por outros de seus seguidores-admiradores, o que apenas comprova, pela justa profusão de indicações, a qualidade da literatura ali encontrada, que nos cativa a todos, tornando-nos seus fiéis leitores.

Ao indicarmos quem nos indicou, fechou-se o círculo de uma brincadeira nova: o amigo-público! Ou seria a roda da ciranda de palavra em que giramos todos de mãos dadas e olhos correntes uns sobre as páginas dos outros? Que a brincadeira continue sempre!


Conosco agora não tá!